Menopausa e Composição Corporal: Por que não devemos confiar na balança?
Se você está na fase do climatério ou já passou pela menopausa, talvez sinta que seu corpo mudou "da noite para o dia". A balança pode até não ter dado um salto assustador, mas as roupas parecem mais apertadas na cintura e a sensação de cansaço é maior. Se você se identifica com isso, saiba que existem dados que explicam exatamente o que está acontecendo — e não é apenas "coisa da idade".
Alguns estudos científicos acompanharam centenas de mulheres por anos para entender como a menopausa transforma o nosso corpo.
A "Reforma Interna" Silenciosa
O ganho de peso na meia-idade não é igual para todos.
O estudo SWAN1 revelou que a transição da menopausa causa uma mudança abrupta e específica na composição corporal feminina (a proporção entre gordura e músculo). Observou-se que aproximadamente 2 anos antes da data da última menstruação começam a ocorrer mudanças significativas no corpo da mulher:
- Aumento acentuado de gordura na região da cintura: Assim que a transição começa, a velocidade com que ganhamos gordura quase dobra, saltando de uma taxa de 1% para 1,7% ao ano.
- A massa muscular sofre redução acentuada: O corpo para de sustentar a massa magra e começa a perder músculos ativamente (cerca de 0,2% ao ano).
O que foi revelador nesse estudo, é que o peso total e o IMC continuam subindo de forma linear, sem grandes "pulos". O que significa que a balança engana: você pode estar perdendo massa muscular, que te protege, e ganhando gordura, que aumenta o risco para a saúde, sem que o número na balança mude drasticamente.
O Freio no Metabolismo
Outro estudo mergulhou nos motivos dessa mudança. Eles descobriram que a queda do estrogênio atua como um "freio" no nosso gasto de energia2.
- Menos queima de gordura: Mulheres que passaram pela menopausa apresentaram uma queda de 32% na capacidade de queimar gordura como fonte de combustível.
- Gasto calórico em queda: O metabolismo de repouso diminui, resultando em cerca de 200 calorias a menos gastas por dia.
· Movimento invisível: Sem que se perceba, há uma redução em até 40% dos movimentos espontâneos do dia a dia, o chamado NEAT, do inglês Non-Exercise Activity Thermogenesis, que traduzido significa “Termogênese de atividades não-ligadas ao exercício” como o hábito de gesticular ou andar pela casa.
Onde a gordura se acumula e por que isso é perigoso
Um ponto crucial é o "endereço" da gordura. Lovejoy e colaboradores (2008)2 observaram que, enquanto o envelhecimento comum traz gordura sob a pele, a menopausa favorece especificamente o aumento da gordura visceral (aquela que fica entre os órgãos abdominais).
Essa alteração na composição corporal não é apenas uma questão estética. O aumento da gordura na região da cintura e a perda de massa muscular elevam drasticamente o risco cardiometabólico, aumentando as chances de desenvolver resistência à insulina, diabetes tipo 2 e doenças do coração. O músculo não é apenas para "aparência", ele é um tecido metabolicamente ativo que ajuda a controlar o açúcar no sangue e a proteger o sistema cardiovascular.
O Exercício: Seu Pilar de Recomposição e Saúde
Diante desses desafios biológicos, a mensagem principal desses estudos não é de desânimo, mas serve para chamar atenção. Se o corpo tende a "frear", o estilo de vida precisa ser o acelerador.
O exercício físico não deve ser visto como uma punição pelo que você comeu, mas como um pilar essencial para o reestabelecimento da saúde. Ele é a ferramenta mais poderosa para:
- Recomposição Corporal: O treino de força (musculação) é o principal "escudo" para frear a perda de massa muscular e sinalizar ao corpo que ele deve manter seus músculos.
- Saúde Cardiovascular: O movimento ajuda a combater os efeitos nocivos da gordura visceral e melhora a eficiência do coração.
- Ajuste Metabólico: O exercício físico ajuda a compensar a queda natural do gasto energético, que ajuda na retomada do controle sobre o metabolismo.
A menopausa é uma fase que exige novas estratégias.
Entender que o seu corpo mudou é o primeiro passo para dar a ele o cuidado que ele realmente precisa nesse momento: mais movimento, proteção aos músculos e um olhar que vai muito além da balança.
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Referências Científicas:
- Greendale, G. A., et al. (2019). Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight.
- Lovejoy, J. C., et al. (2008). Increased visceral fat and decreased energy expenditure during the menopausal transition. International Journal of Obesity.